DO “JOVEM QUE GANHA 2.700 EUROS POR MÊS” À FALTA DE UMA “DECISÃO ERRADA”: ONZE MOMENTOS DA ENTREVISTA A ANTÓNIO COSTA

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Na entrevista que concedeu a Miguel Sousa Tavares, António Costa abordou a crise gerada pela pandemia, mas também a sua eventual sucessão. “Menos maquiavélico do que pensam” e sem esmagar a oposição nas autárquicas, conheça as respostas do primeiro-ministro

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Começou com um pequeno percalço sobre a quantidade de vezes que já partilharam o estúdio desde o início da pandemia e, depois de uma hora de entrevista, terminou com uma breve convergência de ideias. Miguel Sousa Tavares e António Costa voltaram a encontrar-se na TVI e geraram diversos momentos de intenso debate sobre o futuro do país daqui a menos de um mês e em 2024.

Entre os efeitos produzidos pela pandemia, a esperança do PRR e a eventual necessidade da sucessão de Costa no PS, destacam-se onze frases e momentos que marcaram a entrevista concedida estação de Queluz de Baixo.

Ora, desde o início da calamidade, o primeiro-ministro foi entrevistado por Sousa Tavares três vezes. Em março de 2020, em outubro e agora, esta segunda-feira. Uma imprecisão corrigida pelo jornalista e comentador da TVI.

  • “Imagine um jovem que vai para o trabalho e ganha 2700 euros por mês”

Durante a entrevista, António Costa salientou a necessidade de que o país tem em atrair jovens qualificados para a vida ativa, especialmente porque a execução do Plano de Recuperação e Resiliência contempla um investimento de um bilião de euros na criação de  “alianças mobilizadoras” com o objetivo de transformar, em produto de valor acrescentado, o conhecimento produzido pelo sistema científico e tecnológico nacional.

Porém, aquele que foi o grande esforço e mudança nos últimos 25 anos – a subida do nível de conhecimento das pessoas – não teve um acompanhamento rítmico com o tecido empresarial.

“É por isso que o nível de desemprego juvenil está muito acima daquele que é a taxa de desemprego geral”, define.

Sobre o mesmo tema e partindo para uma questão, Miguel Sousa Tavares utiliza a seguinte premissa. “Senhor primeiro-ministro, posso fazer um parêntesis? O senhor fala muitas vezes da geração mais qualificada de sempre. Imagine um jovem, altamente qualificado, que vai para o mercado de trabalho e pagam-lhe aquilo que, para nós é um belo salário, 2.700 euros. Por mês”.

É neste momento que Costa o interrompe. “Não pagam. Infelizmente não pagam”.

“Não pagam, mas vamos imaginar que pagam. O seu ministro das Finanças fica-lhe com 40% disto, o que dá, de facto, 1.400 euros limpos. Dos quais ele vai pagar mil euros por um T1 em Lisboa. Restam-lhe três hipóteses: ou vive com 400 euros, ou vive em casa dos pais; ou vai-se embora”, insiste Sousa Tavares

Ouvindo esta afirmação, Costa rasga a equação. “Falta um dado base que, infelizmente não corresponde à realidade, é que esse jovem altamente qualificado não tem como primeira oferta de emprego esse salário, nem nada que se pareça.

  • PRR: a impressão de que o estado vai gastar tudo na sua clientela

O Plano de Recuperação e Resiliência é um dos mais ambiciosos de sempre e tem definido um horizonte temporal estrito, até 2026. Miguel Sousa Tavares confronta Costa sobre a preocupação da população de que os fundos cheguem sempre aos mesmos. “A sua clientela?”, define o jornalista.

“Há um preconceito assente no desconhecimento daquilo que tem sido o investimento ao longo dos últimos anos dos fundos europeus”, explica Costa, assegurando que todas as avaliações feitas – “quer internamente, quer pela União Europeia” – mostram que a aplicação de fundos tem corrido bem.

O chefe do Governo afirma ainda que a generalidade das verbas são para ser gastas na economia e não no Estado, estando previsto 11 mil milhões de euros de encomenda à economia e 5 mil milhões gastos nas empresas.

Muita da despesa que o Estado vai fazer não é do estado para o estado. Quando o Governo investe na criação de uma estrada, “não é para o Estado andar lá, é para os outros andarem lá”.

  • PRR: Pedro Nuno Santos apoia candidatos e promete obra, Costa lembra que também faz campanha e não promete nada

Primeiro-ministro nega categoricamente quando questionado se as obras projetadas através do PRR vão ter mais relevância em autarquias pertencentes ao Partido Socialista, assegurando que o Plano de Recuperação e Resiliência “vai ser executado seja o presidente da Câmara do PS, PSD, CDS ou PCP”.

Reiterando essa garantia, Costa compara os caminhos políticos dos últimos dias com os de Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e apontado como seu possível sucessor. “Não é só o ministro Pedro Nuno Santos que tem feito campanha. No último fim de semana, fiz 1300 quilómetros desde Bragança até à Covilhã e em sítio nenhum disse que as obras só se faziam se o Governo fosse do PS“, atesta.

  • Costa, “um otimista incorrigível”

Miguel Sousa Tavares interroga o primeiro-ministro sobre o plano para a oportunidade histórica que caracteriza a bazuca de Bruxelas, argumentando que o modelo de desenvolvimento para o país que Portugal tem tido até agora – assente no turismo de massas e no imobiliário, “que a crise provou que não é seguro, nem sustentável”.

A resposta veio quase sem hesitar. “Nunca podemos pôr todos os ovos no mesmo cesto. Portanto, não há um cêntimo no Plano de Recuperação e Resiliência para nenhum desses setores”.

O que há, explica, é uma motivação de investimento na transição digital e na sustentabilidade, através do desenvolvimento e da criação de matéria prima com o conhecimento produzido pelo sistema científico nacional. Uma resposta que é seguida por um riso vindo de Miguel Sousa Tavares: “O senhor, de facto, é um otimista incorrigível”.

  • Uma PAC “profundamente disfuncional” e a necessidade de plantar um fruto exótico

António Costa destaca que o Governo, “muito recentemente”, criou um projeto piloto de certificação de agricultura sustentável, designadamente para abranger a produção de abacate. Mas o anúncio de Costa é contrastado com uma expressão de incredulidade no rosto de Sousa Tavares.

“Porque é que a gente há de ensinar as criancinhas do Algarve a fechar a torneira para poupar água, quando continua a plantação livre de abacates, com cada um a gastar 150 litros de água por dia?”, questiona o jornalista.

Costa admite que existe um problema com a Política Agrícola Comum (PAC), descrevendo-a como “profundamente disfuncional”, mas salienta que Portugal, como país da UE, tem de o seguir. “Eles plantam chaparros na Escócia, senhor primeiro ministro?”, interroga imediatamente Sousa Tavares, gerando alguns risos por parte de Costa.

No âmbito da reforma da Política Agrícola Comum – feito conseguido durante a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia – “conseguimos introduzir uma forte componente ambiental, mas é um longo caminho que há a fazer”.

Mas e a necessidade de plantar um fruto exótico em solo português? “Um dos objetivos que a Europa tem, porventura errado, é o de substituir importações. A produção em território europeu de produções que têm melhores condições noutras regiões do mundo. Se me pergunta se sou favorável? Gostava que a política fosse outra”.

  • “Não gosto de hostilizar ninguém, nem o PSD”

Na entrevista, Costa apresentou a sua crença de que a melhor forma para combater o populismo é o de assegurar um campo democrático que vai ter a sua tradução mais literal nas urnas no dia 26.

Questionado se, durante o período de campanha eleitoral, fica irritado com a quantidade de críticas da esquerda e da direita, o primeiro-ministro afirma que já não estaria na vida política se se deixasse afetar.

“Se eu me irritasse com cada coisa que vejo na Televisão, entre discursos políticos e comentadores, acha que, ao fim destes anos todos, estaria na vida política? Dou o devido desconto, temos eleições no dia 26 de setembro. De hoje até lá todos os partidos vão andar a bater no Partido Socialista, uns porque é um radical de direita, outro porque é de extrema esquerda.”

  • Dia 26 de setembro vai esmagar a oposição? “Nah”

Numa altura em que Paulo Rangel é o nome mais sonante para uma candidatura à presidência do PSD, Sousa Tavares interrogou Costa se este será um melhor adversário político.

“Eu não me meto na vida dos outros partidos, cada partido saberá quem é que está em melhores condições para o liderar e qual é o melhor caminho que há de seguir”, responde, destacando que “ninguém me paga para eu estar a governar os outros partidos”.

  • “Nunca tomei uma decisão errada sobre o que devia fazer”

O secretário-geral do PS considerou, no entanto, que seria irresponsável decidir se vai continuar na liderança depois de 2023, mas prometeu não apoiar nenhum candidato à sua sucessão, nem criar “um deserto” político à sua volta.

Por outro lado, questionado sobre uma notícia do jornal Expresso na qual o Presidente da República prevê que António Costa saia em 2023 das funções de primeiro-ministro, o líder socialista comentou que “não é analista de analistas e muito menos de uma manchete que é feita com base numa fonte anónima”.

António Costa insistiu ainda que consigo não haverá qualquer tipo de tabu e que tomará a decisão sobre a sua continuidade no cargo de secretário-geral do PS “na altura própria”.

“Acho que nunca tomei uma decisão errada sobre o que devia fazer e o que não devia fazer. Até agora não me arrependi. Estou agora a falar sobre decisões sobre se ou quando concorro. Sobre outras decisões, obviamente já errei”, salientou.

  • “Eu sou muito menos maquiavélico do que pensam”

António Costa teve ainda tempo para desvalorizar as suas próprias afirmações sobre um possível empurrão à ministra da saúde Marta Temido para uma candidatura à liderança do PS. Foi “uma resposta de ironia”, diz, sublinhando que é “muito menos maquiavélico do que pensam”.

  • “Até que enfim que viu alguma satisfação em mim, homem. Já me estava a fazer aqui alguma impressão”

Depois de uma hora de entrevista, o primeiro-ministro e Miguel Sousa Tavares encontram um ponto de encontro: o jornalista sublinha que viu com alguma satisfação “que teve ausente do seu discurso no congresso a regionalização”. Costa ri e olha para 2024, altura de se fazer “uma avaliação serena sobre as vantagens das CCDR e se vale a pena dar o passo seguinte que é estas passarem a ser eleitas pelos autarcas e passarem a ser eleitas pelos cidadãos”.

 

Créditos TVI24

 

TVSH 2021

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